Assim que coloquei os pés em
território norte-coreano, revistaram minha mochila de um modo bem
aterrorizante, nada gentil. Minha mala foi jogada e o cadeado arrebentado com
um alicate enorme.
Tudo foi revirado e, claro,
nenhum daqueles militares sequer devolveu minhas roupas para a mala.
Tudo bem até aí. Já haviam me
alertado que tudo isso aconteceria ainda no aeroporto.
Mesmo assim, eu estava lá. E
estava ansiosa para conhecer o país.
Ao chegar ao hotel, a
ascensorista me disse num inglês perfeito: “Estamos numa epidemia de
tuberculose. Tome cuidado. ”
E eu disse para ela que não tinha
essa informação quando saí do meu país.
Ela disse: “Claro que não. Aqui
eles escondem os números de mortos, mas já foram muitos. Eu mesma conheci cinco
pessoas da mesma família que morreram dessa doença. ”
No dia seguinte, aqueles
militares vieram me buscar para iniciarmos um tour pelos principais pontos
turísticos.
E como já tinham me avisado: não
pude filmar nada. E o final, ainda tive meu celular vasculhado, para
confirmarem se realmente não fotografei ou filmei algo inapropriado.
Leia-se inapropriado: aquilo que
o governo não quer que os outros saibam.
A vida é assim na Coreia do
Norte. Talvez muitos de vocês já saibam disso.
O que vocês talvez não saibam é
que nunca estive lá.
Apenas quis descrever aqui no
blog como seria viver num país em que dados básicos de saúde são omitidos da
população. Na verdade, qualquer dado que leve qualquer insatisfação à
população.
Como já disse em outro post, a existência
do vírus não é culpa de nenhum governante. Porém, a conduta que tal governante
toma, determinará o número de infectados e mortos.
A omissão de dados durante crises
não é ideia nova. No Brasil mesmo já houve, durante uma epidemia de meningite
em 1975. A maquiagem feita no governo militar, objetivava esconder o número
real de mortos, para não causar alarme. E isso acabou gerando mais mortes.
Sem a devida informação, as
pessoas não podem se prevenir corretamente. Além disso, gera um sentimento de
desconfiança do governo. E de todos.
Quantas vezes, você aí, não ouviu
alguém dizer: “será que ele morreu mesmo de Covid 19?”
E navegando nesse mar de
desinformação, os brasileiros vão saindo do confinamento, vão se reunindo em
casas de amigos, vão para suas confraternizações, afinal, o número de
infectados não está subindo, nem o número de mortos está aumentando.
É uma maravilha esse mundo cor de
rosa, sem informações. Sem corrupção, sem hospital superfaturado, nada a ser
questionado.
E se não há nada a ser
questionado, não há motivos para protestos, para reivindicações.
Países governados por regimes
autoritários costumam esconder dados.
Na Coreia do Norte não há manifestações.
Afinal, tudo lá é tão certinho. Tudo é tão perfeito! Os militares cuidam do
país com tanto zelo. Ai de quem discordar!
Já estamos alinhados com a Coreia
do Norte e a Venezuela: ambos também não divulgam os dados sobre essa pandemia. Ou
quando divulgam, como a Venezuela, diz que morreram apenas 10 pessoas no país
inteiro.
É assim um governo autoritário.
Pra você que acha que é melhor
mesmo não saber os números da pandemia, infelizmente, um dia a chega a contar
ao próprio redor: ainda hoje contei 8 pessoas infectadas na rua que minha mãe
mora. E já são 4 mortos na mesma rua.
Infelizmente, uma hora os números
aparecem na sua cara.