domingo, 7 de junho de 2020

Meus dias na Coreia do Norte


Assim que coloquei os pés em território norte-coreano, revistaram minha mochila de um modo bem aterrorizante, nada gentil. Minha mala foi jogada e o cadeado arrebentado com um alicate enorme.

Tudo foi revirado e, claro, nenhum daqueles militares sequer devolveu minhas roupas para a mala.
Tudo bem até aí. Já haviam me alertado que tudo isso aconteceria ainda no aeroporto.

Mesmo assim, eu estava lá. E estava ansiosa para conhecer o país.

Ao chegar ao hotel, a ascensorista me disse num inglês perfeito: “Estamos numa epidemia de tuberculose. Tome cuidado. ”

E eu disse para ela que não tinha essa informação quando saí do meu país.

Ela disse: “Claro que não. Aqui eles escondem os números de mortos, mas já foram muitos. Eu mesma conheci cinco pessoas da mesma família que morreram dessa doença. ”

No dia seguinte, aqueles militares vieram me buscar para iniciarmos um tour pelos principais pontos turísticos.

E como já tinham me avisado: não pude filmar nada. E o final, ainda tive meu celular vasculhado, para confirmarem se realmente não fotografei ou filmei algo inapropriado.

Leia-se inapropriado: aquilo que o governo não quer que os outros saibam.

A vida é assim na Coreia do Norte. Talvez muitos de vocês já saibam disso.

O que vocês talvez não saibam é que nunca estive lá.

Apenas quis descrever aqui no blog como seria viver num país em que dados básicos de saúde são omitidos da população. Na verdade, qualquer dado que leve qualquer insatisfação à população.

Como já disse em outro post, a existência do vírus não é culpa de nenhum governante. Porém, a conduta que tal governante toma, determinará o número de infectados e mortos.

A omissão de dados durante crises não é ideia nova. No Brasil mesmo já houve, durante uma epidemia de meningite em 1975. A maquiagem feita no governo militar, objetivava esconder o número real de mortos, para não causar alarme. E isso acabou gerando mais mortes.

Sem a devida informação, as pessoas não podem se prevenir corretamente. Além disso, gera um sentimento de desconfiança do governo. E de todos.

Quantas vezes, você aí, não ouviu alguém dizer: “será que ele morreu mesmo de Covid 19?”

E navegando nesse mar de desinformação, os brasileiros vão saindo do confinamento, vão se reunindo em casas de amigos, vão para suas confraternizações, afinal, o número de infectados não está subindo, nem o número de mortos está aumentando.

É uma maravilha esse mundo cor de rosa, sem informações. Sem corrupção, sem hospital superfaturado, nada a ser questionado.

E se não há nada a ser questionado, não há motivos para protestos, para reivindicações.

Países governados por regimes autoritários costumam esconder dados.

Na Coreia do Norte não há manifestações. Afinal, tudo lá é tão certinho. Tudo é tão perfeito! Os militares cuidam do país com tanto zelo. Ai de quem discordar!

Já estamos alinhados com a Coreia do Norte e a Venezuela: ambos também não divulgam os dados sobre essa pandemia. Ou quando divulgam, como a Venezuela, diz que morreram apenas 10 pessoas no país inteiro.

É assim um governo autoritário.

Pra você que acha que é melhor mesmo não saber os números da pandemia, infelizmente, um dia a chega a contar ao próprio redor: ainda hoje contei 8 pessoas infectadas na rua que minha mãe mora. E já são 4 mortos na mesma rua.

Infelizmente, uma hora os números aparecem na sua cara.