segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Democracia no mar de leite



Para quem leu "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago, ainda hoje deve ter se visto como aquela esposa do médico, que era a única que enxergava em meio a uma população tomada por uma cegueira branca. Ela sofria psicologicamente ao ver a degradação humana, pois isso lhe causava mais dor do que a própria cegueira causaria.

Os resultados eleitorais e o cenário político brasileiro dos últimos anos, nos leva a crer que muitos estão tomados pela "cegueira saramaguiana". Não é uma perda física da visão, mas como uma perda da lucidez, onde a desinformação, o extremismo e a negação da realidade passam a guiar parcelas significativas do eleitorado.

No livro de Saramago, a cegueira é descrita como um mar de leite, uma brancura luminosa que impede as pessoas de enxergarem o que está ao seu redor. No contexto político brasileiro, esse "mar de leite" assemelha-se ao ecossistema de notícias falsas (fake News) e bolhas digitais.

O eleitor, por mais irônico que pareça, é exposto a mais informações do que nunca, mas perdeu a capacidade de distinguir o fato da falsidade, votando muitas vezes sob o efeito de um pânico moral fabricado. A luz excessiva das telas gerou a treva da incompreensão.

Ainda hoje conversando com várias pessoas, algumas relataram que ouviu de um feirante, um mecânico, o balconista da farmácia, um ex-bancário, o filho do juiz, o guia de turismo, a podóloga, o estudante de Direito, ou seja, pertencentes a diferentes classes sociais, mas com uma coisa em comum: declarar o voto para a extrema direita.  E justamente através do pânico moral fabricado nas redes sociais é que a extrema direita consegue esses votos.

Uma das passagens mais dolorosas da obra de Saramago é a degradação dos laços humanos dentro do manicômio onde os cegos são confinados. Diante da crise, o egoísmo impera, a solidariedade desmorona e a violência se torna a linguagem comum.

A ascensão da extrema-direita no Brasil ecoa esse processo por meio da radicalização do discurso público. Ideais que antes eram considerados inaceitáveis no debate democrático — como a exaltação da ditadura, o desprezo pelos direitos humanos, o racismo escancarado e a misoginia — foram normalizados e chancelados pelas urnas. A vitória eleitoral de discursos baseados no preconceito e na eliminação simbólica do "outro" reflete o momento em que a sociedade, cega para a dor alheia, passa a tolerar a crueldade institucionalizada.

Os resultados eleitorais que consagraram lideranças ultraconservadoras no Executivo e no Legislativo resultaram no desmonte sistemático de políticas ambientais, culturais, educacionais e científicas.

É só ver os perfis dos parlamentares que foram eleitos, com recordes de votação: a mulher antifeminista, combatentes à identidade de gênero, defensores da retirada dos direitos dos trabalhadores, defesa de armamento, entre outras pautas.

A cegueira política permitiu que as próprias ferramentas da democracia fossem utilizadas para corroê-la por dentro, elegendo representantes cuja plataforma principal era a destruição das instituições vigentes.

A ascensão da extrema-direita no Brasil não ocorreu por falta de avisos, dados científicos ou precedentes históricos. O eleitorado tinha diante de si as consequências do autoritarismo e do negacionismo — visíveis, por exemplo, na gestão trágica da pandemia de Covid-19 —, mas uma parte substancial escolheu a cegueira deliberada. O voto na extrema-direita muitas vezes representa a recusa em enxergar a complexidade dos problemas sociais, preferindo a ilusão de soluções simplistas e violentas. O Brasil recente, tal como a cidade sem nome de Saramago, redescobre dolorosamente que a democracia é um cristal frágil e que a pior cegueira é aquela que se recusa a reconhecer a humanidade no próximo.

No Brasil recente, a figura da "mulher do médico" engloba o cidadão comum que manteve o pensamento crítico. Enxergar o flerte com o autoritarismo, o deboche diante da morte e a destruição de consensos civilizatórios básicos gera um profundo sentimento de isolamento e exaustão mental. Assim como a personagem de Saramago, quem decide manter os olhos abertos no Brasil de hoje carrega a difícil e exaustiva missão de guiar, alertar e manter viva a memória do que fomos, na esperança de que a sociedade recupere a visão.

Resta torcer para que, ao contrário dos personagens de Saramago, não precisemos perder tudo para finalmente recuperar a visão, porque algumas cegueiras coletivas custam caro demais para serem aprendidas apenas pela experiência.

Como a mulher do médico, seguimos carregando o peso de enxergar. E talvez a nossa maior responsabilidade seja a de não permitir que a cegueira dos outros nos faça desistir da lucidez.

"Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem".      José Saramago, 1995.


 

 

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Nesse grupo não se fala de política: a paz mundial chegou no WhatsApp

Ainda ontem ouvi a administradora de um grupo de mensagens do qual faço parte: “Nesse grupo não se fala de política. É feito pra falar de música. E também não é pra falar mal de um estilo musical ou outro. Vamos ter respeito e maturidade!”

Embora eu tenha gostado da fala dela, se a gente pensar bem, isso revela algo bastante preocupante. Isso evidencia nossa dificuldade em discutir com civilidade, em conviver com opiniões diferentes da nossa e não conseguimos argumentar sem usar ofensas pessoais ou questionar a capacidade intelectual do outro.

Onde foi que a gente se perdeu?

As pessoas preferem não debater ideias a perder uma amizade. Preferem manter os relacionamentos a tentar compreender os argumentos do outro. Falar de política virou sinônimo de desgaste psicológico e sobrecarga emocional. Então, é preferível se manter são.

Com toda a velocidade com que chegam as informações, a nossa capacidade de processá-las ficou mais lenta. É uma contradição. Vemos nas redes um grande engajamento pra se falar sobre tudo, mas a política é mantida numa bolha. As famosas bolhas digitais são formadas pelos algoritmos das redes sociais que só mostram conteúdos alinhados com nossas próprias opiniões. E assim as opiniões divergentes são tratadas como ameaças e não como pontos de vista legítimos.

Essa percepção de que ninguém sabe mais discutir está ligada ao termo chamado de hiperpolítica. Essa palavra foi proposta pelo historiador Anton Jäger, que definiu como um cenário onde a politização é tão extrema, mas que, ao contrário do esperado, não gera impacto social.

Isso significa que a presença da política em todas as áreas saturou tanto nosso dia a dia, que não temos capacidade de interferir em qualquer realidade, não conseguimos mudar nada.  É uma saturação sem profundidade.

E o que dizer da consciência de classe? Perdemos. O que temos hoje é o empregado votando no mesmo candidato que o patrão. Não se pensa na dimensão coletiva da luta. Aliás, a cada dia aumenta o número de pessoas que se afastam da ação coletiva e buscam respostas individuais para problemas comuns.

Jäger fala que tudo isso é resultado do cansaço do neoliberalismo e que as pessoas estão descontentes com tudo. Infelizmente, não há transformação social enquanto estivermos mergulhados na hiperpolítica.

Enquanto a política for futebolizada, torcendo pra um lado ganhar ou perder, não haverá mudança.

Respondendo à pergunta do início do texto: Nos perdemos quando deixamos de entender que a vida é muito mais complexa do que um post de rede social. E o cenário de hiperpolítica em que vivemos, só será superado se houver mudança de comportamento individual, escuta ativa e incentivo à cultura política, dando prioridade à análise com menos emoção.

A solução não é se afastar da política, mas sim tirar essa carga emocional do debate. Afinal, a política não é um tribunal de julgamento moral, mas sim uma ferramenta para resolvermos problemas comuns. Ou seja, ao invés de perguntar se a proposta é de direita ou de esquerda, deveríamos questionar: “essa proposta vai reduzir a inflação?” ou “vamos ter mais recursos para a saúde?”

Lembrando que a hiperpolítica não é o mesmo que ter cultura política. A hiperpolítica é superficial e tem o foco no mundo digital. Enquanto a cultura política se consegue com maturidade, com democracia e saber que nossas vontades não serão todas atendidas.

Então, na próxima vez que alguém disser que não se discute política no grupo de mensagens, diga:  precisamos mudar isso. Precisamos ser maduros e discutir sem ofensas para promover a cultura política. Façamos a nossa parte!

 

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Anton Jäger é historiador do pensamento político e professor em Oxford

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Partidos Políticos

 


Hoje existem 30 partidos políticos registrados no Brasil. Cada um leva em seu nome uma direção implícita, por exemplo: democrático, progressista, trabalhista, cidadão, verde, comunista, operário, cristão, republicano, social. Seja qual for a palavra, cada partido quer apresentar uma mensagem, um grupo de ideias.  

A tentativa de representar cada segmento minoritário pode ter levado a esse grande número de partidos políticos. Ainda temos, pasmem, 23 partidos em processo de formação no TSE. Com isso, o Brasil poderá ter 53 partidos políticos. Cada um representando um nicho: Partido do Autista, Partido Igual, Partido Capitalista Popular, Partido Democrático Afro-Brasileiro, Partido Neossocialista.

Mas será que eles sabem mesmo o que cada nome significa? Sabem a qual espectro político pertencem? É direita? Esquerda? Centro-esquerda? Centro?

Exemplos europeus mostram que os partidos de lá possuem historicamente uma estrutura sólida.

Os partidos de esquerda são socialistas, social-democratas e trabalhistas. As principais defesas são: o papel forte do Estado na economia, os direitos sociais e a proteção ao trabalhador.

Enquanto a direita é formada por partidos conservadores, democrata-cristãos e liberais. Valorizam o livre mercado, a iniciativa privada, preservação dos costumes e tradições, além da segurança.

Sem comparar sistemas políticos de países diferentes, o que queremos aqui é ver como os partidos são orientados a um espectro e se mantem nele ao longo da história, bem definidos. Enquanto os brasileiros buscam tanta representatividade, que muitas vezes, nem sabem a quem representam de verdade.

Além disso, há outro agravante: muitos partidos focam no candidato como personagem central e o eleitor vota na pessoa, sem ao menos saber se aquele candidato se compromete com a ideologia do partido.

Qual seria a saída para essa pluralidade? Seria melhor apenas dois partidos? Colocar um teto? 10 partidos? 15? Ou continuar com muitos partidos e alterar o sistema eleitoral: mudar de proporcional para distrital?

Há quem diga que o sistema proporcional é o mais democrático, pois leva para o debate vozes das minorias. Por outro lado, o sistema distrital acabaria com a eleição de candidatos "puxadores de votos". 

Humm...isso dá uma discussão: vantagens e desvantagens. Humm...assunto para outro dia.

O que está em jogo é: o quão fiel as suas convicções são nossos partidos? Ou mesmo: será que eles tem um ideal a ser perseguido? E o quanto nós, eleitores, avaliamos isso na hora de escolher nosso candidato? 

terça-feira, 7 de julho de 2026

A grama do vizinho é mais azul

 


Recentemente mais dois países elegeram seus Presidentes: Peru e Colômbia.

Keiko Fujimori, após três derrotas eleitorais, conseguiu ser eleita por uma margem muito estreita: 50,13% contra 49,86% do candidato apoiado pela esquerda Roberto Sánchez.

Um país dividido entre a direita e a esquerda.

O sobrenome Fujimori desperta sentimentos diversos na população peruana. Muitos lembram de quando o pai Fujimori governava e havia segurança, não se via tanta criminalidade, segundo contam os peruanos mais antigos.

Qualquer semelhança com o que pensam os brasileiros nostálgicos da época da ditadura, será mera coincidência, já que essa falácia de que não existia corrupção nem crimes naquele período, vem justamente do fato de haver censura à imprensa e a falta de investigação.            

No Peru, a campanha de Keiko deixou claro que ela seria dura, porém, democrática. Essa maquiagem fez com que a rejeição dela fosse menor do que nas eleições anteriores.

Desde 2016, o Peru já teve 10 presidentes. Abriu-se uma crise institucional numa intensa dança das cadeiras e agora, ao que parece, metade da população está satisfeita.

Os movimentos internos nos países da América Latina aliados à onda Trumpista fazem com que a direita avance, principalmente com a pauta da segurança pública, que é um assunto que tem apoio tanto das elites quanto das classes médias ou baixas.

O mesmo ocorre na Colômbia: o candidato Abelardo de la Espriella, usando o mesmo discurso de acabar com o crime, alcançou a vitória com menos de 1% de diferença. 

Outro país dividido.

Enquanto vivemos nessa divisão, o mapa político está mudando: Na América do Sul, já são 7 dos 12 países governados pela direita ou ultradireita. Pela esquerda são: Brasil, Uruguai, Venezuela, Suriname e Guiana.

E o que isso importa para nós brasileiros? O Brasil pode sofrer um isolamento político regional?

Creio que mesmo o Brasil adotando uma postura mais diplomática, ainda devemos nos preocupar. Principalmente pela influência que os Estados Unidos exerce nos nossos vizinhos, com acordos de segurança e operações militares.

Trump lançou em março deste ano de 2026 o Escudo das Américas, que é uma coalizão para enfrentar o crime organizado, com o compartilhamento de inteligência e ações integradas, que visem também a diminuir a influência da China.

O plano já conta com a participação de 12 países, incluindo Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia e El Salvador. O Presidente eleito da Colômbia já anunciou a adesão ao plano. O Brasil está fora por não concordar com a abordagem militarizada dos EUA.

Após os EUA ter classificado como grupos terroristas as facções do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), aumentou o temor de uma intervenção aqui no Brasil. Já nos países onde a direita governa e está aliada aos EUA, não é difícil imaginar medidas extremas a fim de acabar com cartéis de drogas. O próprio Ministro das Relações Exteriores afirmou ter esse temor, na última semana. 

Como evitar? O que fazer? Fortalecimento da soberania? Leis mais rígidas?

O cenário atual é desafiador, mas o Brasil deve continuar a deixar divergências ideológicas de lado e buscar acordos de segurança com os vizinhos, sem descuidar de outras pautas transversais, que muitas vezes nem são citadas pela direita.

E nós não podemos ser tão ingênuos a ponto de pensar que os EUA querem proteger nossos vizinhos pensando na segurança nacional. Temos de ver os interesses geopolíticos, controle de migração, além da diminuição do domínio chinês na América Latina. E para isso, o avanço da ultradireita é apenas o adubo para essa plantação que os EUA quer colher.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O vira-latismo cultural brasileiro

 



 "Antigamente, se dominavam países com força militar. Hoje eles mandam Marvel & Taylor Swift. É mais barato e muito mais eficiente".

A frase original é do Ariano Suassuna e eu tomei a liberdade de "atualizá-la" visto que a "dominação cultural" a que ele se referia naquele momento era o Michael Jackson e a Madonna.

E poderíamos substituir por Stranger Things & Kate Perry ou Star Wars & Beatles. Cada época tem seus "blockbusters", certo?

Veja, não faço aqui, juízo de valor ou avaliação pessoal sobre qualquer artista aqui citado. Mas é preciso entender que a mesma lógica de mercado que sufoca empresas de qualquer ramo, sufoca nossa arte.

Ainda que o brasileiro resista na estatística mundial como um dos que mais consome da própria cultura no mundo, é nítido que a influência estadunidense se tornou um problema.

Nos últimos anos, filmes estrangeiros representaram 87% das salas de cinema.

Nos "streamings" as séries brasileiras sofrem mais uma lavada de 86%.

Muitos "Line ups" de grandes shows de música já nem tem um brasileiro sequer.

E de quebra mais de 30% das pessoas aqui acreditam que nossa arte é inferior àquela produzida nos EUA.

Isso cria uma áurea de superioridade intelectual e cultural, que somada com o saudosismo, reforça o "vira-latismo" do brasileiro.

Nessa profusão de gravadoras, investimentos bilionários, IA e até uma certa "preguiça" de novidades de nossa parte, as grandes obras brasileiras dos últimos anos se perdem por falta de espaço e de mercado, e a gente abandona as nossas pautas, nossas histórias, nossos lugares e até nossa tão bela língua.

É preciso valorizar o que é nosso, o que levamos tempo pra construir e consolidar, o que é autenticamente brasileiro. Senão, tudo vai virando  "brainstorm" "dress code", "ring light", etc.

Autor: André Carvalho 
@andremuringa

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Agradeço a produção desse texto na íntegra ao "bookaholic", ops, ao viciado em leituras e músico André Carvalho que, além de valorizar nossa Língua Portuguesa, também julga muito importante falarmos sobre Política e veio somar neste Blog.  

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Fontes:

Informe Anual do Mercado Cinematográfico referente ao ano de 2024. Publicado no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA em 16/05/2025. Disponível em: <https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/arquivos.pdf/informe-mercado-cinematografico-2024.pdf>

Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda no Brasil. Publicado no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA em 02/12/2025. Disponível em:  <https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/mercado-audiovisual-brasileiro/vod/panorama-vod-2025.pdf>

 



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Arte do Trabalho x Trabalho da Arte



Houve um tempo em que no “Dia do trabalho” se reivindicava que o empregador valorizasse o trabalho do empregado. Hoje a reflexão é outra: o trabalho precisa ser valorizado por todos os trabalhadores.

Você também já deve ter notado que cada vez mais a mentalidade adoecida de alguns aprofunda o abismo social. 

Num exemplo hipotético, mas que já deve ter ocorrido com alguém próximo a nós, em que uma pessoa é capaz de comprar um apartamento de 1 milhão de reais, mas se o pintor cobrar 6 mil reais para pintá-lo, não vai pagar por achar caro. É capaz até mesmo de pintar o apartamento todo sozinho, só pra não pagar o trabalho de outra pessoa. 

Não damos valor econômico ao trabalho, mas damos muito valor ao bem, ao objeto, à coisa. O apartamento vale muito, mas a pintura não.

Quanto vale o trabalho de uma pessoa?

A desvalorização do trabalho é uma prática histórica no Brasil: talvez seja devido à escravidão, mas mesmo após a abolição, essa prática se perpetua na nossa sociedade, principalmente com os trabalhos manuais. Se o trabalho for artístico, a desvalorização é maior ainda. 

Em que você trabalha? Você é artesão? Atriz? Faz biscuit? Decoração? Ah...você desenvolve um trabalho criativo? E isso dá pra você sobreviver? Isso é só um passatempo? Percebem o preconceito nessas perguntas?

A dificuldade é grande em compreender o processo criativo como uma atividade que empreende esforço, técnica e tempo.

O que um neurocirurgião faz? Não seria também um artesão que consegue ter uma precisão e habilidade manuais? Ah, mas ele estudou numa faculdade!

Por esse tipo de justificativa, seguimos num preconceito sem fundamento em um país onde a desigualdade social já é gritante. A cada dia reforça-se ainda mais essa segregação e cabe a cada um de nós evitar que esse muro separe os conhecimentos que cada um detém.

Ninguém constrói nada sozinho. O advogado precisa do pedreiro. O médico precisa do pintor. O analista de dados precisa do professor. E todos precisamos da arte, em todas as suas manifestações.

Vamos reconhecer o valor alheio, sem a ilusão de superioridade, sem se sentir melhor, sem normalizar a desigualdade.

Não adianta lutar por políticas de valorização do trabalho, sem que nós mesmos no dia a dia, não tenhamos consciência e maturidade para assumir que cada um ocupa um lugar na cadeia produtiva. 

A lógica do capital já é cruel. Não a tornemos mais cruel ainda, com atitudes e palavras desumanas.  

Respeito não diminui ninguém. Respeitar as histórias, os sonhos e os esforços por trás de cada trabalho.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Nações Desunidas



Toda vez que há um conflito, a questão ressurge: afinal, para que serve a ONU? É para garantir a paz entre as nações? Por que a ONU não exige o fim dos conflitos?

Constantemente está acontecendo alguma guerra civil, algum confronto entre grupos rivais ou cartéis. Só pra citar alguns que estão ocorrendo neste momento: Ucrânia x Rússia desde 2022, Israel x Palestina, tensões que vão e vem em Mianmar, Sudão, Iêmen e na região do Sahel (envolvendo Mali, Burkina Fasso e Niger).

Muitos desses talvez o leitor nem ouviu falar pela mídia tradicional do Brasil, principalmente os que estão em regiões de extrema pobreza, em que muitas pessoas tiveram de se deslocar gerando uma crise humanitária gigante e muita instabilidade. Disputam territórios, petróleo, poder, provocando limpeza étnica com pouca visibilidade internacional.

Ao total, a ONU tem 193 Estados-membros e 2 Estados observadores: Vaticano e Palestina. A ONU pode intervir nos conflitos, aplicando sanções econômicas ou até mesmo enviar militares para o alcance da paz. Porém, qualquer ação tem de ser aprovada pelo Conselho de Segurança. E quem faz parte desse Conselho? China, França, Estados Unidos, Rússia e Reino Unido.

Esses senhores países tem poder de veto e podem impedir qualquer ação mais eficaz da ONU, como ocorre em Gaza e na Ucrânia. Se um votar contra, nada será feito!

Discutimos isso na Academia: a Teoria do Realismo: onde cada país pode emitir seu desconforto em relação à guerra, mas na realidade ninguém entra no meio do fogo.

No mais recente conflito iniciado em 2026, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. E ainda nesta semana o Presidente estadunidense afirmou: “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, se referindo aos iranianos.

E a frase foi repetida várias vezes por diversos meios de comunicação, sem ao menos ser contestada como um ato deliberado de genocídio.

Normalizaram o extermínio de um povo?

Aqui aparece a Teoria Construtivista das Relações Internacionais: a ONU foi vendida como sendo a grande protetora das nações, mas fica cada dia mais escancarado que não é bem assim. Uma narrativa foi construída de que os Estados Unidos tem o poder, isso é aceito e aceitamos que os EUA tem o poder de intervir em qualquer país soberano impondo suas regras com seu poder de fogo. A mídia internacional acata e reproduz suas falas grotescas, normalizando a guerra e o fim de um povo.

A ONU sofre a queda de sua credibilidade na resolução de conflitos armados, mas ainda mantém sua capacidade na ajuda humanitária. Aliás, a ajuda humanitária seria uma maneira de mostrar que faz algo? Que ainda tem uma função? Não vamos nos esquecer de que se não houvesse os conflitos, nem haveria crise humanitária. Uma reforma estrutural é urgente na ONU. Ou o fim dela?

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Agradeço a colaboração para a produção desse texto:

- à Internacionalista Giovanna Barbosa Batista. @annavoigb
- ao sempre questionador André Carvalho. @andremuringa