quinta-feira, 9 de abril de 2026

Nações Desunidas



Toda vez que há um conflito, a questão ressurge: afinal, para que serve a ONU? É para garantir a paz entre as nações? Por que a ONU não exige o fim dos conflitos?

Constantemente está acontecendo alguma guerra civil, algum confronto entre grupos rivais ou cartéis. Só pra citar alguns que estão ocorrendo neste momento: Ucrânia x Rússia desde 2022, Israel x Palestina, tensões que vão e vem em Mianmar, Sudão, Iêmen e na região do Sahel (envolvendo Mali, Burkina Fasso e Niger).

Muitos desses talvez o leitor nem ouviu falar pela mídia tradicional do Brasil, principalmente os que estão em regiões de extrema pobreza, em que muitas pessoas tiveram de se deslocar gerando uma crise humanitária gigante e muita instabilidade. Disputam territórios, petróleo, poder, provocando limpeza étnica com pouca visibilidade internacional.

Ao total, a ONU tem 193 Estados-membros e 2 Estados observadores: Vaticano e Palestina. A ONU pode intervir nos conflitos, aplicando sanções econômicas ou até mesmo enviar militares para o alcance da paz. Porém, qualquer ação tem de ser aprovada pelo Conselho de Segurança. E quem faz parte desse Conselho? China, França, Estados Unidos, Rússia e Reino Unido.

Esses senhores países tem poder de veto e podem impedir qualquer ação mais eficaz da ONU, como ocorre em Gaza e na Ucrânia. Se um votar contra, nada será feito!

Discutimos isso na Academia: a Teoria do Realismo: onde cada país pode emitir seu desconforto em relação à guerra, mas na realidade ninguém entra no meio do fogo.

No mais recente conflito iniciado em 2026, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. E ainda nesta semana o Presidente estadunidense afirmou: “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, se referindo aos iranianos.

E a frase foi repetida várias vezes por diversos meios de comunicação, sem ao menos ser contestada como um ato deliberado de genocídio.

Normalizaram o extermínio de um povo?

Aqui aparece a Teoria Construtivista das Relações Internacionais: a ONU foi vendida como sendo a grande protetora das nações, mas fica cada dia mais escancarado que não é bem assim. Uma narrativa foi construída de que os Estados Unidos tem o poder, isso é aceito e aceitamos que os EUA tem o poder de intervir em qualquer país soberano impondo suas regras com seu poder de fogo. A mídia internacional acata e reproduz suas falas grotescas, normalizando a guerra e o fim de um povo.

A ONU sofre a queda de sua credibilidade na resolução de conflitos armados, mas ainda mantém sua capacidade na ajuda humanitária. Aliás, a ajuda humanitária seria uma maneira de mostrar que faz algo? Que ainda tem uma função? Não vamos nos esquecer de que se não houvesse os conflitos, nem haveria crise humanitária. Uma reforma estrutural é urgente na ONU. Ou o fim dela?

☆☆☆☆☆☆☆☆

Agradeço a colaboração para a produção desse texto:

- à Internacionalista Giovanna Barbosa Batista. @annavoigb
- ao sempre questionador André Carvalho. @andremuringa

domingo, 22 de março de 2026

Soberania acima de tudo

 
                                                        



Cuba está com problemas sérios de falta de energia, sem comida e principais itens de primeira necessidade. Isso é um reflexo da tomada da Venezuela, pois os EUA proibiram o envio de petróleo e derivados para Cuba, que dependem da energia para bombeamento de água, eletricidade, transporte, enfim, uma série de atividades essenciais para a população.

Daí vejo pela internet circular um vídeo em que uma cubana (que não mora lá) diz esperar que seu país seja liberto logo! Ela espera que os EUA sejam o libertador do seu povo.

E os venezuelanos, também queriam que os EUA fossem lá libertá-los, abduzindo o Maduro?

E os iranianos também se sentem mais protegidos agora que os EUA os atacaram?

E o que falar do Iraque? Afeganistão? Líbia? A história se repete.

Como diria Machado de Assis: “Me faltaria a pena” para escrever tanto!” Então, vamos no deter no Irã:

No início de janeiro de 2026, a população iraniana saiu às ruas para protestar contra o regime repressivo. Em sua maioria, eram mulheres, que queimaram fotos do líder supremo. Muitos homens também aderiram aos protestos.

Dentre os motivos dos protestos estava a polícia da moralidade. As mulheres não tem direito de escolher nem a própria roupa. Essa polícia age como uma patrulha que pune mulheres que usem maquiagem, roupas justas, cortes de cabelo no estilo “ocidental”, podendo receber como punição desde aulas de “reeducação” até chicotadas, prisão ou pena de morte.

Enquanto isso, o dito “salvador” Donald Trump avisou que caso o governo reprimisse os manifestantes, os EUA iriam ajudá-los.

Como forma de represália, o governo iraniano cortou acesso à internet e deixou cerca de 92 milhões de habitantes sem comunicação. E nos dias seguintes, a repressão do governo iraniano foi letal: o saldo foi de 43 mil mortos, de acordo com o Centro Internacional para Direitos Humanos.

E não é preciso dizer que os EUA intervieram no Irã. Não exatamente preocupados com a situação repressiva em que se encontravam os manifestantes. Os Direitos Humanos das mulheres e dos homens que morreram lutando por uma vida mais livre não comoveram o presidente dos EUA. Sabemos que os interesses são outros, assim como no Iraque ou na Venezuela. Um interesse econômico.

Porém, o que vale ressaltar aqui não é o interesse dos EUA no Irã e sim o porquê de, mesmo após o seu líder supremo morto (aquele de quem estavam queimando a foto), os iranianos não estão agradecidos ao governo estadunidense?

Porque existe uma coisa muito mais forte na cultura iraniana: a soberania, a autonomia. E não poderia existir coisa pior do que os EUA intervir. Poderia ter sido qualquer país a tentar derrubar o regime, mas não, foram os EUA. E a percepção que temos é que o povo iraniano não aceita essa intervenção. O conflito armado trouxe a destruição de grande parte do país, matando vidas inocentes.

O desejo de mudança é grande, legítimo, mas o conflito no momento não é interno e sim, contra os EUA e Israel.  Aliás,  Israel é um velho inimigo do Irã e chamou os EUA para ajudar a destruir o Irã.

A arquitetura do regime iraniano não irá cair, dure o tempo que durar essa guerra. Eles tem o apoio de grupos em diversos países: no Iêmen, tem os Houthis. No Líbano tem o Hezbollah. No Iraque, tem o Hashd-al-Shaabi e na Síria também há grupos armados que defendem o Irã controlando corredores logísticos por onde passam armamentos e equipamentos militares.

Esse não é um texto atemporal. Talvez quando você o ler, muita coisa terá mudado no cenário global. Infelizmente, talvez, a única coisa que permaneça inalterada seja a política externa dos EUA disfarçada de “ajuda”, pensando nos seus próprios interesses, impondo sua ideologia ocidental.