Para quem leu "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago, ainda hoje deve ter se visto como aquela esposa do
médico, que era a única que enxergava em meio a uma população tomada por uma
cegueira branca. Ela sofria psicologicamente ao ver a degradação humana, pois
isso lhe causava mais dor do que a própria cegueira causaria.
Os resultados eleitorais e o
cenário político brasileiro dos últimos anos, nos leva a crer que muitos estão tomados
pela "cegueira saramaguiana". Não é uma perda física da visão, mas
como uma perda da lucidez, onde a desinformação, o extremismo e a negação da
realidade passam a guiar parcelas significativas do eleitorado.
No livro de Saramago, a cegueira
é descrita como um mar de leite, uma brancura luminosa que impede as pessoas de
enxergarem o que está ao seu redor. No contexto político brasileiro, esse
"mar de leite" assemelha-se ao ecossistema de notícias falsas (fake
News) e bolhas digitais.
O eleitor, por mais irônico que
pareça, é exposto a mais informações do que nunca, mas perdeu a capacidade de
distinguir o fato da falsidade, votando muitas vezes sob o efeito de um pânico
moral fabricado. A luz excessiva das telas gerou a treva da incompreensão.
Ainda hoje conversando com várias
pessoas, algumas relataram que ouviu de um feirante, um mecânico, o balconista
da farmácia, um ex-bancário, o filho do juiz, o guia de turismo, a podóloga, o
estudante de Direito, ou seja, pertencentes a diferentes classes sociais, mas
com uma coisa em comum: declarar o voto para a extrema direita. E justamente através do pânico moral fabricado
nas redes sociais é que a extrema direita consegue esses votos.
Uma das passagens mais dolorosas
da obra de Saramago é a degradação dos laços humanos dentro do manicômio onde
os cegos são confinados. Diante da crise, o egoísmo impera, a solidariedade
desmorona e a violência se torna a linguagem comum.
A ascensão da extrema-direita no
Brasil ecoa esse processo por meio da radicalização do discurso público. Ideais
que antes eram considerados inaceitáveis no debate democrático — como a
exaltação da ditadura, o desprezo pelos direitos humanos, o racismo escancarado
e a misoginia — foram normalizados e chancelados pelas urnas. A vitória
eleitoral de discursos baseados no preconceito e na eliminação simbólica do
"outro" reflete o momento em que a sociedade, cega para a dor alheia,
passa a tolerar a crueldade institucionalizada.
Os resultados eleitorais que
consagraram lideranças ultraconservadoras no Executivo e no Legislativo
resultaram no desmonte sistemático de políticas ambientais, culturais,
educacionais e científicas.
É só ver os perfis dos parlamentares
que foram eleitos, com recordes de votação: a mulher antifeminista, combatentes
à identidade de gênero, defensores da retirada dos direitos dos trabalhadores,
defesa de armamento, entre outras pautas.
A cegueira política permitiu que
as próprias ferramentas da democracia fossem utilizadas para corroê-la por
dentro, elegendo representantes cuja plataforma principal era a destruição das
instituições vigentes.
A ascensão da extrema-direita no
Brasil não ocorreu por falta de avisos, dados científicos ou precedentes
históricos. O eleitorado tinha diante de si as consequências do autoritarismo e
do negacionismo — visíveis, por exemplo, na gestão trágica da pandemia de
Covid-19 —, mas uma parte substancial escolheu a cegueira deliberada. O voto na
extrema-direita muitas vezes representa a recusa em enxergar a complexidade dos
problemas sociais, preferindo a ilusão de soluções simplistas e violentas. O
Brasil recente, tal como a cidade sem nome de Saramago, redescobre
dolorosamente que a democracia é um cristal frágil e que a pior cegueira é
aquela que se recusa a reconhecer a humanidade no próximo.
No Brasil recente, a figura da
"mulher do médico" engloba o cidadão comum que manteve o pensamento
crítico. Enxergar o flerte com o autoritarismo, o deboche diante da morte e a
destruição de consensos civilizatórios básicos gera um profundo sentimento de isolamento
e exaustão mental. Assim como a personagem de Saramago, quem decide manter os
olhos abertos no Brasil de hoje carrega a difícil e exaustiva missão de guiar,
alertar e manter viva a memória do que fomos, na esperança de que a sociedade
recupere a visão.
Resta torcer para que, ao
contrário dos personagens de Saramago, não precisemos perder tudo para
finalmente recuperar a visão, porque algumas cegueiras coletivas custam caro
demais para serem aprendidas apenas pela experiência.
Como a mulher do médico, seguimos
carregando o peso de enxergar. E talvez a nossa maior responsabilidade seja a
de não permitir que a cegueira dos outros nos faça desistir da lucidez.
"Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem". José Saramago, 1995.







