quarta-feira, 3 de junho de 2026

O vira-latismo cultural brasileiro

 



 "Antigamente, se dominavam países com força militar. Hoje eles mandam Marvel & Taylor Swift. É mais barato e muito mais eficiente".

A frase original é do Ariano Suassuna e eu tomei a liberdade de "atualizá-la" visto que a "dominação cultural" a que ele se referia naquele momento era o Michael Jackson e a Madonna.

E poderíamos substituir por Stranger Things & Kate Perry ou Star Wars & Beatles. Cada época tem seus "blockbusters", certo?

Veja, não faço aqui, juízo de valor ou avaliação pessoal sobre qualquer artista aqui citado. Mas é preciso entender que a mesma lógica de mercado que sufoca empresas de qualquer ramo, sufoca nossa arte.

Ainda que o brasileiro resista na estatística mundial como um dos que mais consome da própria cultura no mundo, é nítido que a influência estadunidense se tornou um problema.

Nos últimos anos, filmes estrangeiros representaram 87% das salas de cinema.

Nos "streamings" as séries brasileiras sofrem mais uma lavada de 86%.

Muitos "Line ups" de grandes shows de música já nem tem um brasileiro sequer.

E de quebra mais de 30% das pessoas aqui acreditam que nossa arte é inferior àquela produzida nos EUA.

Isso cria uma áurea de superioridade intelectual e cultural, que somada com o saudosismo, reforça o "vira-latismo" do brasileiro.

Nessa profusão de gravadoras, investimentos bilionários, IA e até uma certa "preguiça" de novidades de nossa parte, as grandes obras brasileiras dos últimos anos se perdem por falta de espaço e de mercado, e a gente abandona as nossas pautas, nossas histórias, nossos lugares e até nossa tão bela língua.

É preciso valorizar o que é nosso, o que levamos tempo pra construir e consolidar, o que é autenticamente brasileiro. Senão, tudo vai virando  "brainstorm" "dress code", "ring light", etc.

Autor: André Carvalho 
@andremuringa

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Agradeço a produção desse texto na íntegra ao "bookaholic", ops, ao viciado em leituras e músico André Carvalho que, além de valorizar nossa Língua Portuguesa, também julga muito importante falarmos sobre Política e veio somar neste Blog.  

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Fontes:

Informe Anual do Mercado Cinematográfico referente ao ano de 2024. Publicado no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA em 16/05/2025. Disponível em: <https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/arquivos.pdf/informe-mercado-cinematografico-2024.pdf>

Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda no Brasil. Publicado no Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual – OCA em 02/12/2025. Disponível em:  <https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/mercado-audiovisual-brasileiro/vod/panorama-vod-2025.pdf>

 



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Arte do Trabalho x Trabalho da Arte



Houve um tempo em que no “Dia do trabalho” se reivindicava que o empregador valorizasse o trabalho do empregado. Hoje a reflexão é outra: o trabalho precisa ser valorizado por todos os trabalhadores.

Você também já deve ter notado que cada vez mais a mentalidade adoecida de alguns aprofunda o abismo social. 

Num exemplo hipotético, mas que já deve ter ocorrido com alguém próximo a nós, em que uma pessoa é capaz de comprar um apartamento de 1 milhão de reais, mas se o pintor cobrar 6 mil reais para pintá-lo, não vai pagar por achar caro. É capaz até mesmo de pintar o apartamento todo sozinho, só pra não pagar o trabalho de outra pessoa. 

Não damos valor econômico ao trabalho, mas damos muito valor ao bem, ao objeto, à coisa. O apartamento vale muito, mas a pintura não.

Quanto vale o trabalho de uma pessoa?

A desvalorização do trabalho é uma prática histórica no Brasil: talvez seja devido à escravidão, mas mesmo após a abolição, essa prática se perpetua na nossa sociedade, principalmente com os trabalhos manuais. Se o trabalho for artístico, a desvalorização é maior ainda. 

Em que você trabalha? Você é artesão? Atriz? Faz biscuit? Decoração? Ah...você desenvolve um trabalho criativo? E isso dá pra você sobreviver? Isso é só um passatempo? Percebem o preconceito nessas perguntas?

A dificuldade é grande em compreender o processo criativo como uma atividade que empreende esforço, técnica e tempo.

O que um neurocirurgião faz? Não seria também um artesão que consegue ter uma precisão e habilidade manuais? Ah, mas ele estudou numa faculdade!

Por esse tipo de justificativa, seguimos num preconceito sem fundamento em um país onde a desigualdade social já é gritante. A cada dia reforça-se ainda mais essa segregação e cabe a cada um de nós evitar que esse muro separe os conhecimentos que cada um detém.

Ninguém constrói nada sozinho. O advogado precisa do pedreiro. O médico precisa do pintor. O analista de dados precisa do professor. E todos precisamos da arte, em todas as suas manifestações.

Vamos reconhecer o valor alheio, sem a ilusão de superioridade, sem se sentir melhor, sem normalizar a desigualdade.

Não adianta lutar por políticas de valorização do trabalho, sem que nós mesmos no dia a dia, não tenhamos consciência e maturidade para assumir que cada um ocupa um lugar na cadeia produtiva. 

A lógica do capital já é cruel. Não a tornemos mais cruel ainda, com atitudes e palavras desumanas.  

Respeito não diminui ninguém. Respeitar as histórias, os sonhos e os esforços por trás de cada trabalho.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Nações Desunidas



Toda vez que há um conflito, a questão ressurge: afinal, para que serve a ONU? É para garantir a paz entre as nações? Por que a ONU não exige o fim dos conflitos?

Constantemente está acontecendo alguma guerra civil, algum confronto entre grupos rivais ou cartéis. Só pra citar alguns que estão ocorrendo neste momento: Ucrânia x Rússia desde 2022, Israel x Palestina, tensões que vão e vem em Mianmar, Sudão, Iêmen e na região do Sahel (envolvendo Mali, Burkina Fasso e Niger).

Muitos desses talvez o leitor nem ouviu falar pela mídia tradicional do Brasil, principalmente os que estão em regiões de extrema pobreza, em que muitas pessoas tiveram de se deslocar gerando uma crise humanitária gigante e muita instabilidade. Disputam territórios, petróleo, poder, provocando limpeza étnica com pouca visibilidade internacional.

Ao total, a ONU tem 193 Estados-membros e 2 Estados observadores: Vaticano e Palestina. A ONU pode intervir nos conflitos, aplicando sanções econômicas ou até mesmo enviar militares para o alcance da paz. Porém, qualquer ação tem de ser aprovada pelo Conselho de Segurança. E quem faz parte desse Conselho? China, França, Estados Unidos, Rússia e Reino Unido.

Esses senhores países tem poder de veto e podem impedir qualquer ação mais eficaz da ONU, como ocorre em Gaza e na Ucrânia. Se um votar contra, nada será feito!

Discutimos isso na Academia: a Teoria do Realismo: onde cada país pode emitir seu desconforto em relação à guerra, mas na realidade ninguém entra no meio do fogo.

No mais recente conflito iniciado em 2026, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. E ainda nesta semana o Presidente estadunidense afirmou: “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, se referindo aos iranianos.

E a frase foi repetida várias vezes por diversos meios de comunicação, sem ao menos ser contestada como um ato deliberado de genocídio.

Normalizaram o extermínio de um povo?

Aqui aparece a Teoria Construtivista das Relações Internacionais: a ONU foi vendida como sendo a grande protetora das nações, mas fica cada dia mais escancarado que não é bem assim. Uma narrativa foi construída de que os Estados Unidos tem o poder, isso é aceito e aceitamos que os EUA tem o poder de intervir em qualquer país soberano impondo suas regras com seu poder de fogo. A mídia internacional acata e reproduz suas falas grotescas, normalizando a guerra e o fim de um povo.

A ONU sofre a queda de sua credibilidade na resolução de conflitos armados, mas ainda mantém sua capacidade na ajuda humanitária. Aliás, a ajuda humanitária seria uma maneira de mostrar que faz algo? Que ainda tem uma função? Não vamos nos esquecer de que se não houvesse os conflitos, nem haveria crise humanitária. Uma reforma estrutural é urgente na ONU. Ou o fim dela?

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Agradeço a colaboração para a produção desse texto:

- à Internacionalista Giovanna Barbosa Batista. @annavoigb
- ao sempre questionador André Carvalho. @andremuringa

domingo, 22 de março de 2026

Soberania acima de tudo

 
                                                        



Cuba está com problemas sérios de falta de energia, sem comida e principais itens de primeira necessidade. Isso é um reflexo da tomada da Venezuela, pois os EUA proibiram o envio de petróleo e derivados para Cuba, que dependem da energia para bombeamento de água, eletricidade, transporte, enfim, uma série de atividades essenciais para a população.

Daí vejo pela internet circular um vídeo em que uma cubana (que não mora lá) diz esperar que seu país seja liberto logo! Ela espera que os EUA sejam o libertador do seu povo.

E os venezuelanos, também queriam que os EUA fossem lá libertá-los, abduzindo o Maduro?

E os iranianos também se sentem mais protegidos agora que os EUA os atacaram?

E o que falar do Iraque? Afeganistão? Líbia? A história se repete.

Como diria Machado de Assis: “Me faltaria a pena” para escrever tanto!” Então, vamos no deter no Irã:

No início de janeiro de 2026, a população iraniana saiu às ruas para protestar contra o regime repressivo. Em sua maioria, eram mulheres, que queimaram fotos do líder supremo. Muitos homens também aderiram aos protestos.

Dentre os motivos dos protestos estava a polícia da moralidade. As mulheres não tem direito de escolher nem a própria roupa. Essa polícia age como uma patrulha que pune mulheres que usem maquiagem, roupas justas, cortes de cabelo no estilo “ocidental”, podendo receber como punição desde aulas de “reeducação” até chicotadas, prisão ou pena de morte.

Enquanto isso, o dito “salvador” Donald Trump avisou que caso o governo reprimisse os manifestantes, os EUA iriam ajudá-los.

Como forma de represália, o governo iraniano cortou acesso à internet e deixou cerca de 92 milhões de habitantes sem comunicação. E nos dias seguintes, a repressão do governo iraniano foi letal: o saldo foi de 43 mil mortos, de acordo com o Centro Internacional para Direitos Humanos.

E não é preciso dizer que os EUA intervieram no Irã. Não exatamente preocupados com a situação repressiva em que se encontravam os manifestantes. Os Direitos Humanos das mulheres e dos homens que morreram lutando por uma vida mais livre não comoveram o presidente dos EUA. Sabemos que os interesses são outros, assim como no Iraque ou na Venezuela. Um interesse econômico.

Porém, o que vale ressaltar aqui não é o interesse dos EUA no Irã e sim o porquê de, mesmo após o seu líder supremo morto (aquele de quem estavam queimando a foto), os iranianos não estão agradecidos ao governo estadunidense?

Porque existe uma coisa muito mais forte na cultura iraniana: a soberania, a autonomia. E não poderia existir coisa pior do que os EUA intervir. Poderia ter sido qualquer país a tentar derrubar o regime, mas não, foram os EUA. E a percepção que temos é que o povo iraniano não aceita essa intervenção. O conflito armado trouxe a destruição de grande parte do país, matando vidas inocentes.

O desejo de mudança é grande, legítimo, mas o conflito no momento não é interno e sim, contra os EUA e Israel.  Aliás,  Israel é um velho inimigo do Irã e chamou os EUA para ajudar a destruir o Irã.

A arquitetura do regime iraniano não irá cair, dure o tempo que durar essa guerra. Eles tem o apoio de grupos em diversos países: no Iêmen, tem os Houthis. No Líbano tem o Hezbollah. No Iraque, tem o Hashd-al-Shaabi e na Síria também há grupos armados que defendem o Irã controlando corredores logísticos por onde passam armamentos e equipamentos militares.

Esse não é um texto atemporal. Talvez quando você o ler, muita coisa terá mudado no cenário global. Infelizmente, talvez, a única coisa que permaneça inalterada seja a política externa dos EUA disfarçada de “ajuda”, pensando nos seus próprios interesses, impondo sua ideologia ocidental.