quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

A Revolta da vacina: uma história que se repete

 

Em 1904, Oswaldo Cruz[1] pressionou Rodrigues Alves[2] a convencer o Congresso para aprovação da Lei da Vacina[3]. E tornar a vacina contra a varíola obrigatória a todos os brasileiros.

Olavo Bilac[4] e Rui Barbosa[5] eram contrários à vacina, pois era contra à liberdade individual. Como assim não posso dizer “não quero a vacina?”

Então, quando foi aprovada a Lei, houve uma revolta, repleta de inquietações.

Assim como hoje, 116 anos depois, ouvimos pessoas falarem que não se sentem confortáveis em tomar uma vacina produzida em tão pouco tempo.

Outro dia ouvi as sábias palavras do meu pai que sugeriu a solução para esse impasse:

“Quem não quiser tomar a vacina, não toma! Será igual à votação. Votar é obrigatório, mas quem não vota nem justifica, não pode tomar posse em cargo público, não pode emitir passaporte, sem falar nos servidores que podem ter seu pagamento suspenso.”

Curioso notar que há países em que determinada vacina é obrigatória, por exemplo, a febre amarela. Muitos países da Ásia e África ainda exigem a carteira de vacinação para comprovar a imunização do viajante.

Imaginem o mundo pós-pandemia do Covid 19: qual país aceitará brasileiros não vacinados? Sabendo que no Brasil houve milhares de infectados e que a vacinação não foi abrangente, pense em como será o controle da Europa e Estados Unidos, por exemplo.

Com a Lei aprovada em 1904, somente os vacinados poderiam viajar, trabalhar registrado, ser matriculados em escolas e obter certidão de casamento. Vejam só.

A Revolta da Vacina, como ficou conhecida, resultou em tumultos, resultando em prisões e mortes.  Rodrigues Alves se viu obrigado a revogar a Lei e desistiu da obrigatoriedade.

E isso culminou numa perda de ambos os lados: os revoltosos sofreram tanto com as prisões e o governo, como com a varíola.

Somente em 1908, quando o surto de varíola assolou o Rio de Janeiro, a população correu para se vacinar.

Mas até aí, quantos fizeram parte do número dos mortos?

 



[1] Foi médico, bacteriologista, epidemiologista e sanitarista.

[2] Foi Presidente do Brasil entre 1902 e 1906, além de governar o estado de São Paulo nos períodos de 1887-1888, 1900-1902, 1912-1916

[3] Lei nº 1.261, de 31/10/1904. Torna obrigatória em toda a República, a vacinação e a revacinação contra a varíola.

[4] Jornalista e cronista

[5] Jornalista. Diplomata, político