Outro dia presenciei uma
discussão entre duas pessoas: uma tinha acabado de dizer que não aguentava mais
tanta roubalheira e escândalos no governo. A outra disse: “Até você pensa
assim? Achei que você estivesse em outro patamar.”
Essa frase fez-me até parar de
mastigar. Pensei: Onde é esse outro patamar?
Penso que, só está em “outro
patamar” aqueles que conseguem enxergar o que os governos fazem, seja bom ou
ruim. E conseguem discutir e aceitar as críticas, quando necessário.
A crítica nem foi pra mim, mas
fiquei intrigada: ora, mas que patamar é esse? E ouvia, ali, enquanto almoçava,
aquela discussão que se formou, agora incluindo outro rapaz que estava na mesma
mesa.
Continuou a defesa, falando somente
os bons feitos do governo federal desde há 12 anos. E os maus feitos,
conseguia transformar em bons, tamanho o poder de argumentação, como o de um advogado.
Diga-se merecidamente, que o
governo federal, principalmente no mandato de Lula, foi quem mais contribuiu
para a redução da pobreza extrema. Segundo o Banco Mundial, o número de
brasileiros que vivem com até R$ 7,5 por dia caiu de 10% para 4% entre 2001 e
2013.
Tanto foi que, o Datafolha registrou
83% de avaliação ótimo ou bom no final de 2010, a mais alta alcançada por um
presidente. Isso não se pode negar.
Mas aquela palavra “patamar”
continuava a me intrigar, enquanto eu almoçava. O primeiro que reclamou da
corrupção estaria em um patamar inferior, conforme pensava o segundo? E o segundo
encontrava-se num patamar superior por conseguir ver o que realmente acontecia
no Brasil? Ou seria o contrário? O primeiro estaria acima do segundo, por julgar-se
superior, conhecedor da verdade por trás da corrupção? Ou por acreditar em tudo
o que a mídia falava?
E continuaram as três pessoas
debatendo: a corrupção, o mensalão, o cartel dos trens, o fim da miséria, a
elevação do preço da energia elétrica, ufa!
Impressionante que, em apenas
meia hora, surjam tantos argumentos a favor e contra alguém.
A comida esfriava em seus pratos.
O meu prato já estava vazio, mas
queria ver até onde iriam naquela discussão.
Porém não foram a lugar algum.
Provavelmente num próximo embate,
quer na mesa do restaurante, quer no cafezinho, a conversa continuará. E é
assim que acontece hoje em dia: em muitas mesas de restaurante, em muitos
pontos de ônibus, dentro da condução, no elevador, as reclamações e as
argumentações sobre política tomaram o lugar daquela prosa de antigamente: “tá muito
calor hoje!” ou “será que vai chover?”
A educação política ainda é
incipiente no nosso país, mas vejo muitos que buscam entender como avaliar e
cobrar os que foram eleitos, querem debater e querem expor suas ideias para
melhorar a representação nos parlamentos. É isso que tenho visto por aí ultimamente.
E não somente às vésperas de eleições. Espero que aprendamos muito com esses
debates, que levem à sociedade a votar melhor e a cobrar mais.
