domingo, 31 de maio de 2015

O outro patamar

Outro dia presenciei uma discussão entre duas pessoas: uma tinha acabado de dizer que não aguentava mais tanta roubalheira e escândalos no governo. A outra disse: “Até você pensa assim? Achei que você estivesse em outro patamar.”

Essa frase fez-me até parar de mastigar. Pensei: Onde é esse outro patamar?

Penso que, só está em “outro patamar” aqueles que conseguem enxergar o que os governos fazem, seja bom ou ruim. E conseguem discutir e aceitar as críticas, quando necessário.

A crítica nem foi pra mim, mas fiquei intrigada: ora, mas que patamar é esse? E ouvia, ali, enquanto almoçava, aquela discussão que se formou, agora incluindo outro rapaz que estava na mesma mesa.

Continuou a defesa, falando somente os bons feitos do governo federal desde há 12 anos. E os maus feitos, conseguia transformar em bons, tamanho o poder de argumentação, como o de um advogado.

Diga-se merecidamente, que o governo federal, principalmente no mandato de Lula, foi quem mais contribuiu para a redução da pobreza extrema. Segundo o Banco Mundial, o número de brasileiros que vivem com até R$ 7,5 por dia caiu de 10% para 4% entre 2001 e 2013.

Tanto foi que, o Datafolha registrou 83% de avaliação ótimo ou bom no final de 2010, a mais alta alcançada por um presidente. Isso não se pode negar.

Mas aquela palavra “patamar” continuava a me intrigar, enquanto eu almoçava. O primeiro que reclamou da corrupção estaria em um patamar inferior, conforme pensava o segundo? E o segundo encontrava-se num patamar superior por conseguir ver o que realmente acontecia no Brasil? Ou seria o contrário? O primeiro estaria acima do segundo, por julgar-se superior, conhecedor da verdade por trás da corrupção? Ou por acreditar em tudo o que a mídia falava?

E continuaram as três pessoas debatendo: a corrupção, o mensalão, o cartel dos trens, o fim da miséria, a elevação do preço da energia elétrica, ufa!

Impressionante que, em apenas meia hora, surjam tantos argumentos a favor e contra alguém.

A comida esfriava em seus pratos.

O meu prato já estava vazio, mas queria ver até onde iriam naquela discussão.

Porém não foram a lugar algum.

Provavelmente num próximo embate, quer na mesa do restaurante, quer no cafezinho, a conversa continuará. E é assim que acontece hoje em dia: em muitas mesas de restaurante, em muitos pontos de ônibus, dentro da condução, no elevador, as reclamações e as argumentações sobre política tomaram o lugar daquela prosa de antigamente: “tá muito calor hoje!” ou “será que vai chover?”


A educação política ainda é incipiente no nosso país, mas vejo muitos que buscam entender como avaliar e cobrar os que foram eleitos, querem debater e querem expor suas ideias para melhorar a representação nos parlamentos. É isso que tenho visto por aí ultimamente. E não somente às vésperas de eleições. Espero que aprendamos muito com esses debates, que levem à sociedade a votar melhor e a cobrar mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário