segunda-feira, 4 de maio de 2026

Arte do Trabalho x Trabalho da Arte



Houve um tempo em que no “Dia do trabalho” se reivindicava que o empregador valorizasse o trabalho do empregado. Hoje a reflexão é outra: o trabalho precisa ser valorizado por todos os trabalhadores.

Você também já deve ter notado que cada vez mais a mentalidade adoecida de alguns aprofunda o abismo social. 

Num exemplo hipotético, mas que já deve ter ocorrido com alguém próximo a nós, em que uma pessoa é capaz de comprar um apartamento de 1 milhão de reais, mas se o pintor cobrar 6 mil reais para pintá-lo, não vai pagar por achar caro. É capaz até mesmo de pintar o apartamento todo sozinho, só pra não pagar o trabalho de outra pessoa. 

Não damos valor econômico ao trabalho, mas damos muito valor ao bem, ao objeto, à coisa. O apartamento vale muito, mas a pintura não.

Quanto vale o trabalho de uma pessoa?

A desvalorização do trabalho é uma prática histórica no Brasil: talvez seja devido à escravidão, mas mesmo após a abolição, essa prática se perpetua na nossa sociedade, principalmente com os trabalhos manuais. Se o trabalho for artístico, a desvalorização é maior ainda. 

Em que você trabalha? Você é artesão? Atriz? Faz biscuit? Decoração? Ah...você desenvolve um trabalho criativo? E isso dá pra você sobreviver? Isso é só um passatempo? Percebem o preconceito nessas perguntas?

A dificuldade é grande em compreender o processo criativo como uma atividade que empreende esforço, técnica e tempo.

O que um neurocirurgião faz? Não seria também um artesão que consegue ter uma precisão e habilidade manuais? Ah, mas ele estudou numa faculdade!

Por esse tipo de justificativa, seguimos num preconceito sem fundamento em um país onde a desigualdade social já é gritante. A cada dia reforça-se ainda mais essa segregação e cabe a cada um de nós evitar que esse muro separe os conhecimentos que cada um detém.

Ninguém constrói nada sozinho. O advogado precisa do pedreiro. O médico precisa do pintor. O analista de dados precisa do professor. E todos precisamos da arte, em todas as suas manifestações.

Vamos reconhecer o valor alheio, sem a ilusão de superioridade, sem se sentir melhor, sem normalizar a desigualdade.

Não adianta lutar por políticas de valorização do trabalho, sem que nós mesmos no dia a dia, não tenhamos consciência e maturidade para assumir que cada um ocupa um lugar na cadeia produtiva. 

A lógica do capital já é cruel. Não a tornemos mais cruel ainda, com atitudes e palavras desumanas.  

Respeito não diminui ninguém. Respeitar as histórias, os sonhos e os esforços por trás de cada trabalho.