Você também já deve ter notado que cada vez mais a mentalidade adoecida de alguns aprofunda o abismo social.
Num exemplo hipotético, mas que já deve ter ocorrido com alguém próximo a nós, em que uma pessoa é capaz de comprar um apartamento de 1 milhão de reais, mas se o pintor cobrar 6 mil reais para pintá-lo, não vai pagar por achar caro. É capaz até mesmo de pintar o apartamento todo sozinho, só pra não pagar o trabalho de outra pessoa.
Não
damos valor econômico ao trabalho, mas damos muito valor ao bem, ao objeto, à
coisa. O apartamento vale muito, mas a pintura não.
Quanto vale o trabalho de uma
pessoa?
A desvalorização do trabalho é uma prática histórica no Brasil: talvez seja devido à escravidão, mas mesmo após a abolição, essa prática se perpetua na nossa sociedade, principalmente com os trabalhos manuais. Se o trabalho for artístico, a desvalorização é maior ainda.
Em que você trabalha? Você é artesão? Atriz? Faz biscuit? Decoração? Ah...você desenvolve um trabalho criativo? E isso dá pra você sobreviver? Isso é só um passatempo? Percebem o preconceito nessas perguntas?
A dificuldade é grande em
compreender o processo criativo como uma atividade que empreende esforço,
técnica e tempo.
O que um neurocirurgião faz? Não
seria também um artesão que consegue ter uma precisão e habilidade manuais? Ah,
mas ele estudou numa faculdade!
Por esse tipo de justificativa, seguimos
num preconceito sem fundamento em um país onde a desigualdade social já é
gritante. A cada dia reforça-se ainda mais essa segregação e cabe a cada um de
nós evitar que esse muro separe os conhecimentos que cada um detém.
Ninguém constrói nada sozinho. O
advogado precisa do pedreiro. O médico precisa do pintor. O analista de dados
precisa do professor. E todos precisamos da arte, em todas as suas manifestações.
Vamos reconhecer o valor alheio,
sem a ilusão de superioridade, sem se sentir melhor, sem normalizar a
desigualdade.
Não adianta lutar por políticas
de valorização do trabalho, sem que nós mesmos no dia a dia, não tenhamos
consciência e maturidade para assumir que cada um ocupa um lugar na cadeia
produtiva.
A lógica do capital já é cruel. Não a tornemos mais cruel ainda, com atitudes e palavras desumanas.
Respeito não diminui ninguém. Respeitar as histórias, os
sonhos e os esforços por trás de cada trabalho.

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