A trajetória de Lula é conhecida no
mundo inteiro. Desde sua infância pobre no nordeste, a difícil vinda com a
família para São Paulo, a militância no partido, a luta sindical, a
persistência em candidatar-se a Presidente até ganhar.
Muitos seguidores de Lula o veem como
um mito, alguém que lutou a vida toda em prol de um ideal e conseguiu realizar
seu sonho de chegar à presidência do Brasil. Ao término do segundo mandato,
Lula seria capaz de se reeleger para um terceiro mandato, caso houvesse. Mesmo
após ter passado pelas turbulências do mensalão (em 2006), Lula ainda terminou
seu mandato em 2010 com índice de ótimo e bom em 87% (CNT/Sensus), 80%
(CNI/Ibope) e 83% (Datafolha). E não foi somente porque ele atendeu parcelas
mais carentes da sociedade, ampliou as políticas sociais e de redistribuição de
renda, foi muito mais do que isso: a aprovação naquela época ocorreu como
resultado de um fenômeno chamado lulismo: a união de um Estado forte, com
diminuição da desigualdade social, ao mesmo tempo em que é preservada a
política econômica do país.
Até então muitos temiam ter suas
poupanças confiscadas (!) ou terem suas propriedades entregues para os
camponeses sem terra (!), temiam o desconhecido: um governo de esquerda.
Nunca antes nesse país havíamos tido um
governo de esquerda e isso preocupava muitos brasileiros. Mas Lula provou que a
esquerda, assim como em muitos lugares no mundo, quando sobem ao poder, acabam
se “endireitando”,literalmente. E nessa "chegadinha" mais para a
direita, fez com que o número de cidadãos satisfeitos com seu governo aumentasse,
tanto os declaradamente de esquerda, quanto os direitistas. Mas o mito está
sumindo. Em seu lugar destaca-se um metalúrgico que chegou ao poder e ajudou a
afundar o país, assim dizem opiniões várias. Eu mesma conheço um senhor que,
quando o José Dirceu foi preso, pela segunda vez, disse para mim: “Só fico
contente quando o Lula for preso! Ele tá envolvido em tudo isso!”
E qual a razão para esse desejo? Há
quem chame isso de senso de justiça. Os brasileiros cansaram de ser enganados,
querem que todos paguem por seus erros. Se for assim, quem sobrará pra trancar
a cela?
O povo perdeu totalmente a esperança e
a confiança em algo que há 5 anos tinha: num líder capaz de reduzir
desigualdades, ampliar o acesso a bens e serviços que a camada mais pobre da
população não tinha. Esse fácil acesso também revolta os mais endinheirados,
não é só a corrupção que os revolta. Eles querem exclusividade e segregação em
aeroportos, restaurantes, escolas, enfim, em todos os lugares em que for
possível separar em classes sociais. Essa falta de confiança e esperança agrava
ainda mais devido à falta de líderes. Esse vazio é tão grande, que acredito que
Dilma ganhou a reeleição por falta de um candidato melhor. Muitas pessoas ainda
pensam assim: vou votar no “menos pior”. Isso é um erro imenso.
Como todos sabem a sucessora de Lula
conseguiu a vitória na eleição mais apertada da história e desde então está na
corda bamba se equilibrando como consegue.
O problema de indicar alguém para te
suceder é que as pessoas acham que vão ter alguém igual a você. E quando isso
não acontece, a culpa é de quem? De quem? A culpa é toda sua que indicou. Foi
assim também com Pitta que, ao serem descobertos seus atos ilícitos, pôs fim à
carreira no Executivo de Paulo Maluf, que o indicou. (Não que Maluf fosse um
exemplo de honestidade, mas ainda assim era um líder e levava muitos seguidores
até hoje).
E será assim também com Lula. Já é
assim. Ele já foi incluído entre os temas dos protestos, como vimos no último
dia 16. Ou seja, o mito está se esvaindo e o símbolo foi aquele boneco inflável
do Lula em Brasília. Os manifestantes trouxeram à tona que a situação que
vivemos hoje é criação dele. Reavivaram a memória de muitas pessoas que ainda
acreditavam num possível retorno de Lula em 2018. Romperam o último fiozinho de
esperança em um Brasil melhor em 2018, com o retorno do líder.
Nós bem sabemos que se não fosse a
Dilma a sucessora de Lula, quem seria? Seria o José Dirceu. Ou seja, o PT teve
de mudar os planos e preparar um novo sucessor. E prepararam uma pessoa sem
experiência nas urnas, mas que tinha experiência em gestão. Tinha?
Agora vemos que sofremos, há tempos, da
falta de líderes. Não há líderes como foi Lula. E temo que demore muito a
aparecer alguém como ele: que leva multidões, com carisma, poder de articulação
política e popularidade. Outro dia li uma opinião que dizia que Lula errou ao
esquecer uma célebre frase do pensador Lord Acton: “o poder corrompe e o poder
absoluto corrompe absolutamente”. Pode ter se esquecido dessa, mas lembrou-se de
Maquiavel: “a arte da política é a manutenção no poder”. Uma coisa é certa: ele vai continuar reconhecido no mundo inteiro,
mas dessa vez não por sua trajetória de homem que luta, mas apenas como o homem
que indicou a Dilma para sucedê-lo.

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