Complementando o último
texto que postei aqui, o primeiro turno das eleições na Guatemala levou dois
candidatos à próxima disputa em outubro: uma delas é Sandra Torres, de
centro-esquerda, com 19,7% e na liderança, Jimmy Morales com quase 24% dos
votos.
O que chama a atenção é
que parece ter chegado lá o fenômeno Tiririca. Sim, pois Jimmy Morales é um
ator comediante. Alguns o chamam de palhaço. O comediante mais famoso da
Guatemala e a um passo da Presidência.
E coloco-me a pensar: o
que leva o povo de um país, ou a sua grande maioria, a eleger as celebridades?
Será um tipo de
protesto ou será somente um gesto involuntário da desesperança de um povo
cansado dos mesmos políticos? Cansado das mesmas promessas?
Ouvi pessoas argumentarem
que votaram no Tiririca porque ele parecia ser honesto. Na hora da reeleição
dele, disseram que ele era um dos poucos deputados que compareciam a todas as
sessões. Ora, mas não é esse o emprego dele? Isso não é sua obrigação? Devo
premiá-lo com meu voto por ele cumprir sua obrigação?
Uma pesquisa rápida no
site da Câmara revela que nesse período de trabalho, Tiririca apresentou 16
projetos de lei (autoria somente dele) priorizando o tema “circo”, como foi
anunciado em suas campanhas. Até hoje, nenhum virou lei. Alguns estão em
tramitação nas comissões, outros estão na pauta, mas nunca entram em votação.
Dentre os projetos, tem
uns interessantes, como a isenção de IPI para os veículos circenses. Ou ainda
que as atividades circenses sejam incluídas como manifestação cultural na Lei
Rouanet. No ano passado, ele
apresentou um projeto fora da sua área circense: proibir a substituição de
candidato que estiver com ficha-suja. Já vimos várias candidaturas impugnadas e
na hora H, o candidato coloca a esposa, o irmão, enfim, alguém com a ficha
limpa no seu lugar. Ainda está tramitando na Comissão de Constituição, Justiça
e Cidadania.
E o que falar do
ex-jogador Romário? Eleito pelo Rio de Janeiro, cumpriu o mandato de Deputado
Federal e agora é Senador.
Tenho um amigo carioca
que elogia o trabalho do senador Romário. Ele alega que enquanto o ex-jogador
foi deputado federal fez um ótimo trabalho e por isso mereceria o seu voto para
senador. Ele diz que vota consciente: acompanha o trabalho do senador junto aos
portadores de necessidades especiais e que além do futebol, Romário se preocupa
muito com pessoas que tem doenças raras ou são incapacitados de alguma maneira,
principalmente com os mais pobres.
Enquanto deputado,
Romário apresentou 29 projetos de lei, a maioria voltado para as pessoas
especiais. Ele propõe o fim de taxa adicional para alunos especiais em escolas,
incentivo às atividades paraolímpicas, enfim, quem achou que ele só se
preocuparia com o futebol, dessa vez se enganou.
Na Câmara dos
Deputados, o novato Sérgio Reis vai levando a vida entre o mandato e os shows.
Não teve votação recorde, bem verdade que recebeu ajuda dos votos de Celso
Russomanno, do mesmo partido. Porém, mesmo assim, é uma celebridade que
resolveu fazer algo pelo povo. E o que ele está fazendo?
No seu curto período de
atuação, apresentou 6 projetos de lei um tanto curiosos: que os shows e
espetáculos não comecem com atraso. Ah...isso é muito importante mesmo! Acho um
absurdo pagar caríssimo em certos shows e o artista se dar o luxo de atrasar
duas horas, ou meia hora que seja. Além disso, os eventos que forem financiados
com dinheiro público deverão ter entrada gratuita. Hummm...estou gostando. Outro
projeto do sertanejo é que as empresas de transporte tenham funcionários aptos
a tratar os idosos. Por enquanto, tudo em tramitação. Lenta. Quem sabe um dia?
E quanto às demais
celebridades que povoam o Congresso Nacional? E nas Assembleias e Câmaras
Municipais? Faltaria o tempo para escrever sobre todos, mas o que leva as
pessoas a votarem nessas ou em outras celebridades?
O candidato Jimmy da
Guatemala, assim como Tiririca, fez uma campanha apolítica, ou seja,
contrariando o que os demais candidatos sempre fizeram e chamando a atenção do povo para a sua diferença: ele não era político.
E se o eleitor está
cansado dos políticos, parte para alternativa: um artista
que tem carisma, alguns beiram ao idolatrado e já tem um público cativo e
fiel: voto certo!
Com isso, a política
deixa de ser coisa séria? Basta ser famoso? Até o bom marqueteiro pode ser dispensado?
Esse fenômeno ocorre em todo o mundo? Ajudem-me os colegas cientistas
políticos.
A cada dia que passa, as
pessoas estão apostando as fichas em pessoas famosas, crendo que farão um bom
trabalho, que defenderão suas causas. E se não fizerem? E se os palhaços só nos
fizerem rir? Ou pior: e se não acharmos
engraçado?
A situação é mais séria
do que parece. Nas mãos de quem está o futuro das leis deste país e dos demais
países?
Observação pós-postagem: Já era quase certa a vitória de Jimmy na Guatemala. No último dia 25 de outubro, no segundo turno, o comediante foi conduzido à Presidência pelos votos do povo guatematelco.
