domingo, 13 de setembro de 2015

Tá rindo de quê?

Complementando o último texto que postei aqui, o primeiro turno das eleições na Guatemala levou dois candidatos à próxima disputa em outubro: uma delas é Sandra Torres, de centro-esquerda, com 19,7% e na liderança, Jimmy Morales com quase 24% dos votos.

O que chama a atenção é que parece ter chegado lá o fenômeno Tiririca. Sim, pois Jimmy Morales é um ator comediante. Alguns o chamam de palhaço. O comediante mais famoso da Guatemala e a um passo da Presidência.

E coloco-me a pensar: o que leva o povo de um país, ou a sua grande maioria, a eleger as celebridades?

Será um tipo de protesto ou será somente um gesto involuntário da desesperança de um povo cansado dos mesmos políticos? Cansado das mesmas promessas?

Ouvi pessoas argumentarem que votaram no Tiririca porque ele parecia ser honesto. Na hora da reeleição dele, disseram que ele era um dos poucos deputados que compareciam a todas as sessões. Ora, mas não é esse o emprego dele? Isso não é sua obrigação? Devo premiá-lo com meu voto por ele cumprir sua obrigação?

Uma pesquisa rápida no site da Câmara revela que nesse período de trabalho, Tiririca apresentou 16 projetos de lei (autoria somente dele) priorizando o tema “circo”, como foi anunciado em suas campanhas. Até hoje, nenhum virou lei. Alguns estão em tramitação nas comissões, outros estão na pauta, mas nunca entram em votação.

Dentre os projetos, tem uns interessantes, como a isenção de IPI para os veículos circenses. Ou ainda que as atividades circenses sejam incluídas como manifestação cultural na Lei Rouanet.  No ano passado, ele apresentou um projeto fora da sua área circense: proibir a substituição de candidato que estiver com ficha-suja. Já vimos várias candidaturas impugnadas e na hora H, o candidato coloca a esposa, o irmão, enfim, alguém com a ficha limpa no seu lugar. Ainda está tramitando na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.

E o que falar do ex-jogador Romário? Eleito pelo Rio de Janeiro, cumpriu o mandato de Deputado Federal e agora é Senador.

Tenho um amigo carioca que elogia o trabalho do senador Romário. Ele alega que enquanto o ex-jogador foi deputado federal fez um ótimo trabalho e por isso mereceria o seu voto para senador. Ele diz que vota consciente: acompanha o trabalho do senador junto aos portadores de necessidades especiais e que além do futebol, Romário se preocupa muito com pessoas que tem doenças raras ou são incapacitados de alguma maneira, principalmente com os mais pobres.

Enquanto deputado, Romário apresentou 29 projetos de lei, a maioria voltado para as pessoas especiais. Ele propõe o fim de taxa adicional para alunos especiais em escolas, incentivo às atividades paraolímpicas, enfim, quem achou que ele só se preocuparia com o futebol, dessa vez se enganou.

Na Câmara dos Deputados, o novato Sérgio Reis vai levando a vida entre o mandato e os shows. Não teve votação recorde, bem verdade que recebeu ajuda dos votos de Celso Russomanno, do mesmo partido. Porém, mesmo assim, é uma celebridade que resolveu fazer algo pelo povo. E o que ele está fazendo?

No seu curto período de atuação, apresentou 6 projetos de lei um tanto curiosos: que os shows e espetáculos não comecem com atraso. Ah...isso é muito importante mesmo! Acho um absurdo pagar caríssimo em certos shows e o artista se dar o luxo de atrasar duas horas, ou meia hora que seja. Além disso, os eventos que forem financiados com dinheiro público deverão ter entrada gratuita. Hummm...estou gostando. Outro projeto do sertanejo é que as empresas de transporte tenham funcionários aptos a tratar os idosos. Por enquanto, tudo em tramitação. Lenta. Quem sabe um dia?

E quanto às demais celebridades que povoam o Congresso Nacional? E nas Assembleias e Câmaras Municipais? Faltaria o tempo para escrever sobre todos, mas o que leva as pessoas a votarem nessas ou em outras celebridades?

O candidato Jimmy da Guatemala, assim como Tiririca, fez uma campanha apolítica, ou seja, contrariando o que os demais candidatos sempre fizeram e chamando a atenção do povo para a sua diferença: ele não era político. 

E se o eleitor está cansado dos políticos, parte para alternativa: um artista que tem carisma, alguns beiram ao idolatrado e já tem um público cativo e fiel: voto certo!

Com isso, a política deixa de ser coisa séria? Basta ser famoso? Até o bom marqueteiro pode ser dispensado? Esse fenômeno ocorre em todo o mundo? Ajudem-me os colegas cientistas políticos.

A cada dia que passa, as pessoas estão apostando as fichas em pessoas famosas, crendo que farão um bom trabalho, que defenderão suas causas. E se não fizerem? E se os palhaços só nos fizerem rir?  Ou pior: e se não acharmos engraçado?

A situação é mais séria do que parece. Nas mãos de quem está o futuro das leis deste país e dos demais países?

Observação pós-postagem: Já era quase certa a vitória de Jimmy na Guatemala. No último dia 25 de outubro, no segundo turno, o comediante foi conduzido à Presidência pelos votos do povo guatematelco.  

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