quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Nesse grupo não se fala de política: a paz mundial chegou no WhatsApp

Ainda ontem ouvi a administradora de um grupo de mensagens do qual faço parte: “Nesse grupo não se fala de política. É feito pra falar de música. E também não é pra falar mal de um estilo musical ou outro. Vamos ter respeito e maturidade!”

Embora eu tenha gostado da fala dela, se a gente pensar bem, isso revela algo bastante preocupante. Isso evidencia nossa dificuldade em discutir com civilidade, em conviver com opiniões diferentes da nossa e não conseguimos argumentar sem usar ofensas pessoais ou questionar a capacidade intelectual do outro.

Onde foi que a gente se perdeu?

As pessoas preferem não debater ideias a perder uma amizade. Preferem manter os relacionamentos a tentar compreender os argumentos do outro. Falar de política virou sinônimo de desgaste psicológico e sobrecarga emocional. Então, é preferível se manter são.

Com toda a velocidade com que chegam as informações, a nossa capacidade de processá-las ficou mais lenta. É uma contradição. Vemos nas redes um grande engajamento pra se falar sobre tudo, mas a política é mantida numa bolha. As famosas bolhas digitais são formadas pelos algoritmos das redes sociais que só mostram conteúdos alinhados com nossas próprias opiniões. E assim as opiniões divergentes são tratadas como ameaças e não como pontos de vista legítimos.

Essa percepção de que ninguém sabe mais discutir está ligada ao termo chamado de hiperpolítica. Essa palavra foi proposta pelo historiador Anton Jäger, que definiu como um cenário onde a politização é tão extrema, mas que, ao contrário do esperado, não gera impacto social.

Isso significa que a presença da política em todas as áreas saturou tanto nosso dia a dia, que não temos capacidade de interferir em qualquer realidade, não conseguimos mudar nada.  É uma saturação sem profundidade.

E o que dizer da consciência de classe? Perdemos. O que temos hoje é o empregado votando no mesmo candidato que o patrão. Não se pensa na dimensão coletiva da luta. Aliás, a cada dia aumenta o número de pessoas que se afastam da ação coletiva e buscam respostas individuais para problemas comuns.

Jäger fala que tudo isso é resultado do cansaço do neoliberalismo e que as pessoas estão descontentes com tudo. Infelizmente, não há transformação social enquanto estivermos mergulhados na hiperpolítica.

Enquanto a política for futebolizada, torcendo pra um lado ganhar ou perder, não haverá mudança.

Respondendo à pergunta do início do texto: Nos perdemos quando deixamos de entender que a vida é muito mais complexa do que um post de rede social. E o cenário de hiperpolítica em que vivemos, só será superado se houver mudança de comportamento individual, escuta ativa e incentivo à cultura política, dando prioridade à análise com menos emoção.

A solução não é se afastar da política, mas sim tirar essa carga emocional do debate. Afinal, a política não é um tribunal de julgamento moral, mas sim uma ferramenta para resolvermos problemas comuns. Ou seja, ao invés de perguntar se a proposta é de direita ou de esquerda, deveríamos questionar: “essa proposta vai reduzir a inflação?” ou “vamos ter mais recursos para a saúde?”

Lembrando que a hiperpolítica não é o mesmo que ter cultura política. A hiperpolítica é superficial e tem o foco no mundo digital. Enquanto a cultura política se consegue com maturidade, com democracia e saber que nossas vontades não serão todas atendidas.

Então, na próxima vez que alguém disser que não se discute política no grupo de mensagens, diga:  precisamos mudar isso. Precisamos ser maduros e discutir sem ofensas para promover a cultura política. Façamos a nossa parte!

 

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Anton Jäger é historiador do pensamento político e professor em Oxford