Aquele cálculo racional que
existia já não se encontra entre nós. O que vemos hoje é uma sociedade dominada
pela paixão extrema, uma polarização afetiva.
No modelo clássico de comportamento
eleitoral, o cidadão agia de forma mais instrumental e menos emocional. O foco
estava em resultados palpáveis. Assim era o voto econômico – em que o eleitor
olhava para o próprio bolso, para a inflação, para o emprego. O governante só
era reeleito se esses itens estivessem bons. O voto útil era uma estratégia
para não o desperdiçar – não se votava no candidato predileto, mas sim em quem
tinha reais chances de vencer. E esse cenário, é claro, sem deixar a civilidade
na divergência. O adversário era somente alguém com propostas erradas para o
país, nada além disso.
Nos dias atuais, as pessoas
pararam de escolher o que é prático e passaram a decidir com base no que seu
grupo sente. É como se fosse um torcedor organizado.
Dessa forma, o voto não é mais
sobre "o que o governo vai entregar", mas sobre "quem eu sou e a
qual grupo pertenço". Mesmo que os indicadores econômicos variem, surjam
denúncias e evidências de candidatos envolvidos em corrupção ou até mesmo em crimes,
as posições dos eleitores permanecem engessadas devido a essa forte barreira de
identidade criada.
Sem falar que, nas últimas
eleições em vez de votar a favor de um projeto, vota-se contra o
outro lado. O motor do voto não é a esperança em uma proposta, mas o medo e a
aversão ao oponente.
E as campanhas contribuíram muito
para esse cenário: o foco não é mais falar dos planos de governo, mas os
candidatos e partidos se concentram em narrativas de guerra cultural e ataques
pessoais. Mais uma vez foi o que vimos ainda ontem num debate na televisão.
O cálculo racional de antigamente
foi engolido pela necessidade de ver o "time adversário" derrotado.
Talvez seja justamente por isso
que eu sinta tanta nostalgia quando olho para a política de antigamente. Não
porque o passado tenha sido perfeito, longe disso, mas porque havia algo que,
como cientista política, me fascinava: a possibilidade de compreender o
comportamento dos eleitores por meio de escolhas, interesses, incentivos e
estratégias. Havia lógica, havia padrões, havia espaço para a mudança de
opinião diante dos fatos. Hoje, muitas vezes tenho a sensação de estar
observando outra realidade. O eleitor que antes avaliava governos parece ter
dado lugar ao torcedor que defende seu lado independentemente do placar. Dados,
indicadores, denúncias e evidências perderam força diante da identidade
coletiva e da necessidade de pertencimento. E confesso que isso me entristece.
Não apenas como pesquisadora da área, mas como cidadã. A política, que deveria
ser uma ferramenta para resolver problemas concretos e melhorar a vida das
pessoas, foi transformada em uma arena de ressentimentos, idolatrias e guerras
permanentes.
E o mais inquietante é que,
quando a paixão passa a valer mais do que a realidade, deixamos de escolher
governantes e passamos apenas a escolher lados. Nesse momento, a democracia
perde um pouco de sua capacidade de corrigir rumos, e a Ciência Política passa
a explicar menos decisões e mais emoções?
O time pode ter sido dominado por
90 minutos, mas o eleitor sai do estádio convencido de que a vitória moral foi
sua. Os fatos ficam em segundo plano. O importante é que o adversário não
comemore. Não à toa, ao fim de um debate, os dois lados saem cantando a
vitória.
E ainda que haja uma virada nos
45 minutos do segundo tempo, a governabilidade será impossível, com um
Congresso repleto de representantes da extrema direita, que só querem e irão
tirar os seus direitos, os nossos direitos!
Chegou a hora de lotar as
arquibancadas da democracia, mas não como torcidas organizadas que aplaudem o
próprio time mesmo quando ele faz gol contra. É hora de entrar em campo como
cidadãos. Vote pensando no seu bolso, no custo de vida, no emprego, na
qualidade dos serviços públicos que você utiliza todos os dias. Vote pensando
na sua liberdade de trabalhar, empreender, expressar suas opiniões e construir
seu próprio futuro.
E liberdade também significa
soberania: a capacidade de decidir nosso próprio destino, proteger a Amazônia e
todas as nossas riquezas naturais.
Vamos lotar as arquibancadas,
sim, mas com a consciência de que não somos apenas torcedores assistindo à
partida. Somos os donos do estádio. Os jogadores entram e saem, os técnicos são
substituídos, os times vencem e perdem, mas quem continua pagando a manutenção,
cuidando da estrutura e convivendo com as consequências do resultado somos nós.
Na política, acontece o mesmo:
governantes passam, partidos mudam, mas o país permanece. E a conta das
escolhas feitas nas urnas sempre chega ao cidadão. Por isso, mais importante do
que ver o nosso time vencer é garantir que o estádio continue de pé. E é
justamente aqui que recai a nossa responsabilidade.
Na minha avaliação, uma vitória
da extrema direita representa um risco real à estrutura desse estádio chamado
Brasil: aos direitos conquistados, às instituições democráticas, às liberdades
individuais, à proteção da Amazônia e à soberania sobre nossos recursos
naturais. Se entregarmos o futuro do país à lógica da intolerância, do
autoritarismo e da divisão permanente, poderemos descobrir tarde demais que, na
ânsia de derrotar o time adversário, permitimos que as arquibancadas rachassem
e que os alicerces do estádio fossem comprometidos. Porque, quando a democracia
se enfraquece, não existe torcida vencedora. Todos perdem.

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