segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A Política em tempos de arquibancada

 


Escolhi a Ciência Política numa época em que era possível discutir e encontrar padrões nos eleitores. Sem falar naquela teoria do voto que a gente estudava: voto útil, voto econômico, voto pragmático, voto de rejeição...ah..que saudades dessa época! A gente analisava as pesquisas de intenção de voto, relacionava com a escolaridade, com a classe de renda, traçava linhas de tendência...tempo bom!

Aquele cálculo racional que existia já não se encontra entre nós. O que vemos hoje é uma sociedade dominada pela paixão extrema, uma polarização afetiva.

No modelo clássico de comportamento eleitoral, o cidadão agia de forma mais instrumental e menos emocional. O foco estava em resultados palpáveis. Assim era o voto econômico – em que o eleitor olhava para o próprio bolso, para a inflação, para o emprego. O governante só era reeleito se esses itens estivessem bons. O voto útil era uma estratégia para não o desperdiçar – não se votava no candidato predileto, mas sim em quem tinha reais chances de vencer. E esse cenário, é claro, sem deixar a civilidade na divergência. O adversário era somente alguém com propostas erradas para o país, nada além disso.

Nos dias atuais, as pessoas pararam de escolher o que é prático e passaram a decidir com base no que seu grupo sente. É como se fosse um torcedor organizado.

Dessa forma, o voto não é mais sobre "o que o governo vai entregar", mas sobre "quem eu sou e a qual grupo pertenço". Mesmo que os indicadores econômicos variem, surjam denúncias e evidências de candidatos envolvidos em corrupção ou até mesmo em crimes, as posições dos eleitores permanecem engessadas devido a essa forte barreira de identidade criada.

Sem falar que, nas últimas eleições em vez de votar a favor de um projeto, vota-se contra o outro lado. O motor do voto não é a esperança em uma proposta, mas o medo e a aversão ao oponente.

E as campanhas contribuíram muito para esse cenário: o foco não é mais falar dos planos de governo, mas os candidatos e partidos se concentram em narrativas de guerra cultural e ataques pessoais. Mais uma vez foi o que vimos ainda ontem num debate na televisão.   

O cálculo racional de antigamente foi engolido pela necessidade de ver o "time adversário" derrotado.

Talvez seja justamente por isso que eu sinta tanta nostalgia quando olho para a política de antigamente. Não porque o passado tenha sido perfeito, longe disso, mas porque havia algo que, como cientista política, me fascinava: a possibilidade de compreender o comportamento dos eleitores por meio de escolhas, interesses, incentivos e estratégias. Havia lógica, havia padrões, havia espaço para a mudança de opinião diante dos fatos. Hoje, muitas vezes tenho a sensação de estar observando outra realidade. O eleitor que antes avaliava governos parece ter dado lugar ao torcedor que defende seu lado independentemente do placar. Dados, indicadores, denúncias e evidências perderam força diante da identidade coletiva e da necessidade de pertencimento. E confesso que isso me entristece. Não apenas como pesquisadora da área, mas como cidadã. A política, que deveria ser uma ferramenta para resolver problemas concretos e melhorar a vida das pessoas, foi transformada em uma arena de ressentimentos, idolatrias e guerras permanentes.

E o mais inquietante é que, quando a paixão passa a valer mais do que a realidade, deixamos de escolher governantes e passamos apenas a escolher lados. Nesse momento, a democracia perde um pouco de sua capacidade de corrigir rumos, e a Ciência Política passa a explicar menos decisões e mais emoções?

O time pode ter sido dominado por 90 minutos, mas o eleitor sai do estádio convencido de que a vitória moral foi sua. Os fatos ficam em segundo plano. O importante é que o adversário não comemore. Não à toa, ao fim de um debate, os dois lados saem cantando a vitória.

E ainda que haja uma virada nos 45 minutos do segundo tempo, a governabilidade será impossível, com um Congresso repleto de representantes da extrema direita, que só querem e irão tirar os seus direitos, os nossos direitos!

Chegou a hora de lotar as arquibancadas da democracia, mas não como torcidas organizadas que aplaudem o próprio time mesmo quando ele faz gol contra. É hora de entrar em campo como cidadãos. Vote pensando no seu bolso, no custo de vida, no emprego, na qualidade dos serviços públicos que você utiliza todos os dias. Vote pensando na sua liberdade de trabalhar, empreender, expressar suas opiniões e construir seu próprio futuro.

E liberdade também significa soberania: a capacidade de decidir nosso próprio destino, proteger a Amazônia e todas as nossas riquezas naturais.

Vamos lotar as arquibancadas, sim, mas com a consciência de que não somos apenas torcedores assistindo à partida. Somos os donos do estádio. Os jogadores entram e saem, os técnicos são substituídos, os times vencem e perdem, mas quem continua pagando a manutenção, cuidando da estrutura e convivendo com as consequências do resultado somos nós.

Na política, acontece o mesmo: governantes passam, partidos mudam, mas o país permanece. E a conta das escolhas feitas nas urnas sempre chega ao cidadão. Por isso, mais importante do que ver o nosso time vencer é garantir que o estádio continue de pé. E é justamente aqui que recai a nossa responsabilidade.

Na minha avaliação, uma vitória da extrema direita representa um risco real à estrutura desse estádio chamado Brasil: aos direitos conquistados, às instituições democráticas, às liberdades individuais, à proteção da Amazônia e à soberania sobre nossos recursos naturais. Se entregarmos o futuro do país à lógica da intolerância, do autoritarismo e da divisão permanente, poderemos descobrir tarde demais que, na ânsia de derrotar o time adversário, permitimos que as arquibancadas rachassem e que os alicerces do estádio fossem comprometidos. Porque, quando a democracia se enfraquece, não existe torcida vencedora. Todos perdem.

 

 

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